1. EDITORIAL 14.8.13

"O CARTEL DA INFORMAO"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial 

Assiste-se por esses dias ao trfego debruar da mdia sobre um dos mais longevos esquemas de assalto  mquina pblica de que se tem notcia  o caso do superfaturamento em contratos do Metr e dos trens de So Paulo, arquitetado por multinacionais que se organizaram em cartel para fraudar seguidas concorrncias durante quase 20 anos. Os meandros das operaes, desvendados em primeira mo pela ISTO (e seus textos esto a para quem quiser verificar), foram depois revisitados pelos demais veculos e recontados como descobertas surpreendentes, com direito a manchetes e a enganosa embalagem de exclusivo. Da revelao do contedo do depoimento de um ex-funcionrio da Siemens  testemunha s depois considerada como pea-chave por um jornalo paulista  at os percentuais de 30% no achaque, passando pela citao, at ento indita, de que o esquema atravessou os governos dos tucanos Covas, Serra e Alckmin, e que tinha triangulao inclusive com empresas offshores uruguaias; a ISTO foi mostrando passo a passo, e inicialmente com baixo interesse por parte dos demais, como se deu a montagem da maracutaia. Quando as capas de ISTO vieram  tona provocaram uma forte reao e cobrana em cadeia nas redes sociais. E essa se fez sentida sobre certos setores da imprensa, levando  quebra do cordo de isolamento e do abafa montado sobre o assunto.

Por dcadas, a ndole cordata do povo brasileiro, misturada  escassez de canais de comunicao para expressar seu descontentamento, pode ter passado aos senhores do poder a falsa impresso de que eles detinham o controle da opinio pblica. Da mesma maneira, representantes da mdia, talvez pela coincidncia de objetivos com esses senhores ou preocupados com os efeitos de eventuais inquietaes suscitadas entre os grados, passaram a considerar a informao uma espcie de condomnio fechado. Somente eles, luminares do certo e do errado, poderiam julgar o que  de interesse geral e escolher quando e como publicar. Na semana passada, um veculo de grande circulao teve de praticar contorcionismos verbais para explicar por que, mesmo depois das evidncias, evitava falar das administraes do PSDB que estavam por trs das concorrncias fraudadas. As redes sociais, que j haviam demonstrado sua fora levando milhares de manifestantes s ruas, exigiam explicaes. Mudaram o funcionamento da engrenagem que queria blindar tucanos de alta plumagem. Seguiu-se a demonstrao de caradurismo geral. Inflamadas reportagens e editoriais tentavam assumir a paternidade da histria, ou de parte dela. Por sua vez, autoridades diziam-se surpresas com as revelaes. O atual governador paulista, Geraldo Alckmin, chegou a declarar que se confirmado o cartel, o Estado  vtima. Afronta o senso comum e seria demasiadamente ingnuo supor que um cartel se organizou sozinho, funcionou por quase duas dcadas e que quem pagou no sabia ou no desconfiou de nada. A articulao se concretizou, e ganhou porte, graas a uma demanda que veio do prprio Estado e com a aquiescncia de seus representantes. Alckmin, com tal postura, repetiu o velho hbito de seguidos governantes para mostrar que no era com ele. Algo bem parecido com o que fez tempos atrs o ex-presidente Lula, do PT, reagindo teatralmente ao ser confrontado com as provas do mensalo, cujo julgamento condenou vrios de seus assessores mais prximos.

Dando continuidade s apuraes e revelaes, ISTO mostra na reportagem de capa desta edio que governos tucanos foram oficialmente informados a respeito do esquema em mais de uma ocasio, como demonstram documentos, e que membros dessas gestes participaram ativamente ou foram beneficiados pelo conluio. Com a srie de reportagens sobre O escndalo do Metr, ISTO acredita estar contribuindo firmemente para o desbaratamento da quadrilha e a punio dos culpados, colocando-se na trincheira daqueles que anseiam pela verdade. A informao factual vem fartamente documentada em suas pginas, como tem sido usual ao longo da cobertura. Mas ao contrrio de parte da mdia, que se tem em alta conta, a Revista no se imagina detentora da informao absoluta. Expressa sim sua perplexidade com a omisso ou demora no reconhecimento das denncias aqui relatadas. Sabe que alguns jornalistas  donos de jornais e seus empregados  experimentam s vezes uma estranha sensao de onipotncia e so dados a ignorar, deliberadamente, alguns temas ou eventos. Esses ofendem qualquer conceito de jornalismo srio e responsvel, em proveito de uma arrogncia comodamente instalada entre aqueles que aqui mandaram durante os perodos de exceo. Para efeito de registro, vale dizer que, na nossa balana, pesa mais o papel de levar aos leitores, de maneira clara e abalizada, as informaes que possam auxili-los na sua tomada de posio sobre as mais variadas questes que afetam seu dia a dia.

